Era uma tarde de domingo, mamãe havia saído e era certo que não retornaria antes de fazer-se noite. As instruções eram claras: “nada de rua, menina”!
Enganava-se quanto ao “menina”. Eu tinha nove anos e sabia muito bem ir até a “rua de lazer”, que ficava a poucos metros da casa, com meus patins novos, e voltar antes do fim da tarde. Seria tão cuidadosa que minha escapulida sequer seria notada.
Meus amigos me esperavam ansiosos por uma tarde de diversão, e eu deslizava cada vez mais rápido pela pista lisa ao encontro deles.
O dono do pequeno bar da esquina, de avental encardido e cara fechada, estava a lavar a calçada, e as pequenas poças d’água não me pareciam uma ameaça. Seguia firmemente na ânsia da brincadeira, com o olhar fixo no horizonte tremulo.
De súbito, a gravidade insensível levou-me ao chão. O cimento cinza da rua se aproximava rapidamente, e não houve chance acordo, era certo que o estrago seria grande.
Levei algum tempo para descolar o rosto do asfalto, quando me surpreendi suspensa no ar. Me vi sobraçada ao marrento filho do dono do bar , que repetia insistentemente: “Sua mãe está em casa? Sua mãe está em casa?”
Aquela pergunta ecoava, e o pânico dominava meu corpo. Nem dor mais sentia, somente o desviar do olhar e a cara de asco do garoto me deixavam tão angustiada como a iminência da encarar mamãe.
O espelho na entrada do velho casarão em que morávamos, revelou que não seria possível esconder o mal feito. Dois dentes quebrados e os vários hematomas eram o saldo da brincadeira, e o salgado das lágrimas evocavam a dor.
Os sapatos gastos de mamãe açoitavam o chão de madeira com intensidade, enquanto todos os castigos e torturas possíveis dominavam minha mente.
Um longo abraço regado a lágrimas de culpa, estampou um leve sorriso em minha boca inchada e agora sem dentes.
Havia me livrado da bronca.
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