Por que me toma com esse olhar canino? Não venhas tu me abanar o rabo com tuas expectativas. Já me basta todo peso das esperas empregadas pelos outros, aqueles que dividem comigo o palco da vida. Esse eterno espetáculo no qual vivo a luta por um espaço na ribalta. São tantos os ensaios, frente ao espelho, cada movimento cauculado, cada peça de roupa milimétricamente ajeitada para se fazer mostrar as etiquetas.
Comportamentos estudados nos livros para não haver erro, catálogo os looks do momento, o cabelo da moda, o peso ideal.
Não meu caro animal, não é nada fácil, e nem barato. O custo é uma vida entregue ao trabalho assalariado que se resume ao pagamento da fatura no fim do mês.
Triste né? É a luz da rua, ou seus olhos parecem marejados?
Me encontro encenando tantos papéis que ao final do dia não sei mais quem sou, não sei se sou o que escolhi ser, ou fui escolhida pra ser o que queriam de mim.
Mas já é tarde querido cão, e preciso me apressar, amanhã bato ponto cedo, e ainda tenho o ritual de cremes e rejuvenescedores para aplicar no rosto antes de dormir. Amanhã cortarei os cabelos como os daquela linda atriz, mas serei obrigada a render meus cachos a progressiva pois só desta forma ficará como os dela.
Divertir-me? Sim estou mesmo precisando... Sabe estou ansiosa pela compra de um Blu Ray que vi promoção nas Casas Bahia, garantirei o meu logo após o pagamento.
Quando verei meus filmes favoritos? Não sei meu amigo, para pagar a nova aquisição precisarei fazer hora extra, mas um dia, vai dar...
O encontro com meus amigos? Sim... Estamos marcando a tempos... mas um dia vai dar...
Preciso ir amigo, tenho poucas horas de sono a minha espera, e quero chegar a tempo de cobrir minha filha.
Boa noite? Infelizmente não poderei dar, ela certamente já estará adormecida.
Me restará velar teu sono por alguns minutos, e me assombrar com seus pés que não cabem mais na cama de tão crescida.
Vá, continue sua corrida pela noite, e me deixe ir...
Siga sua vida vazia de cão e deixe-me seguir com meus importantes afazeres.
Os textos aqui publicados são apenas variações alucinadas da realidade. Qualquer semelhança é mera coincidência, ou não.
quinta-feira, 15 de março de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
Minha primeira crônica fruto da oficina de Literatura da Maíra Viana :)
Era uma tarde de domingo, mamãe havia saído e era certo que não retornaria antes de fazer-se noite. As instruções eram claras: “nada de rua, menina”!
Enganava-se quanto ao “menina”. Eu tinha nove anos e sabia muito bem ir até a “rua de lazer”, que ficava a poucos metros da casa, com meus patins novos, e voltar antes do fim da tarde. Seria tão cuidadosa que minha escapulida sequer seria notada.
Meus amigos me esperavam ansiosos por uma tarde de diversão, e eu deslizava cada vez mais rápido pela pista lisa ao encontro deles.
O dono do pequeno bar da esquina, de avental encardido e cara fechada, estava a lavar a calçada, e as pequenas poças d’água não me pareciam uma ameaça. Seguia firmemente na ânsia da brincadeira, com o olhar fixo no horizonte tremulo.
De súbito, a gravidade insensível levou-me ao chão. O cimento cinza da rua se aproximava rapidamente, e não houve chance acordo, era certo que o estrago seria grande.
Levei algum tempo para descolar o rosto do asfalto, quando me surpreendi suspensa no ar. Me vi sobraçada ao marrento filho do dono do bar , que repetia insistentemente: “Sua mãe está em casa? Sua mãe está em casa?”
Aquela pergunta ecoava, e o pânico dominava meu corpo. Nem dor mais sentia, somente o desviar do olhar e a cara de asco do garoto me deixavam tão angustiada como a iminência da encarar mamãe.
O espelho na entrada do velho casarão em que morávamos, revelou que não seria possível esconder o mal feito. Dois dentes quebrados e os vários hematomas eram o saldo da brincadeira, e o salgado das lágrimas evocavam a dor.
Os sapatos gastos de mamãe açoitavam o chão de madeira com intensidade, enquanto todos os castigos e torturas possíveis dominavam minha mente.
Um longo abraço regado a lágrimas de culpa, estampou um leve sorriso em minha boca inchada e agora sem dentes.
Havia me livrado da bronca.
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