Frente ao reflexo, estática, observo um outro Eu.
Observo de soslaio no início. Não tenho coragem de encarar.
Quando ouso um contato, o outro eu me desafia. Endurece firmemente a face ante
mim tentando intimidar.
Não me sinto desta forma desde a quinta série, quando recebi
de terceiros a noticia de que seria “pega” na saída. Mas porquê? Eu inocente
perguntava. – Ela não vai com a sua cara.
O outro Eu, também “não vai com a minha cara”. Mas mesmo
assim eu não conseguia sair de frente daquele espelho.
Herança perdida que não tinha espaço na casa e veio parar no
meu quarto. Sempre que entrava no cômodo, dava de cara comigo, naquela moldura
em linhas rústicas pintada de branco. Evitava o contato contínuo. Muitas vezes
olhava-me rapidamente, mal penteava os cabelos para evitar o desconforto desse encontro. Mas dessa vez, quase que por obrigação,
decidi que só sairia dali quando meus olhos aprendessem a me encarar.
Nunca fui bonita. E de certa forma, ter consciência disso já
me libertava de uma série de obrigações. Maquiagens, penteados, vaidades são
acessórios de quem acredita que pode se valer pela imagem. Como isso nunca foi
arma minha, me escondia atrás dos livros e das canções, que se tornaram a fala
que perdi com o costume da solidão.
Muitas vezes quis responder cantando. Talvez por isso, a
paixão por musicais. Quem precisa de diálogos quando se tem a canção? Quem
precisa de pessoas quando se tem um cão? Quem precisa de mim?
...
O outro Eu me intimida. Insiste na troca de olhares e pouco
a pouco, vou me deixando entrar no jogo. Tão acostumada a ser sozinha, não
sabia lidar nem com minha própria imagem refletida do espelho.
Numa coragem súbita, passei a investigar o outro Eu.
Olhava-a com ausência de conhecimento, com ares de primeira vez.
Busquei novos ângulos, suavemente levantando o queixo,
jogando os cabelos e sorrindo. Reconectava-me ao outro Eu. Estávamos fazendo as
pazes.
Em tempo, notei que me afeiçoava ao que era inevitável...
E eu, que tanto queria que seu olhar inquisidor me
libertasse do julgamento diário, hoje sofria a iminência de sua partida. É
certo que o outro Eu, tão meu, não sobreviveria a luz do dia. Talvez a trégua
seja justamente brincadeira da noite, que amiga, simulava esperanças e curava
os mal feitos do dia me reconciliando com o outro Eu.
Choro.
Ela chora também. Divide comigo a dor. Somos finalmente
amigas então.
Ao ver seu aspecto deprimente, busco me recompor para que
siga meu exemplo.
Nos perdoamos.
Me livro do outro. E agora somos somente Eu.