sábado, 15 de dezembro de 2012

O Outro Eu


Frente ao reflexo, estática, observo um outro Eu.
Observo de soslaio no início. Não tenho coragem de encarar. Quando ouso um contato, o outro eu me desafia. Endurece firmemente a face ante mim tentando intimidar.
Não me sinto desta forma desde a quinta série, quando recebi de terceiros a noticia de que seria “pega” na saída. Mas porquê? Eu inocente perguntava. – Ela não vai com a sua cara.

O outro Eu, também “não vai com a minha cara”. Mas mesmo assim eu não conseguia sair de frente daquele espelho.

Herança perdida que não tinha espaço na casa e veio parar no meu quarto. Sempre que entrava no cômodo, dava de cara comigo, naquela moldura em linhas rústicas pintada de branco. Evitava o contato contínuo. Muitas vezes olhava-me rapidamente, mal penteava os cabelos para evitar o desconforto desse encontro.  Mas dessa vez, quase que por obrigação, decidi que só sairia dali quando meus olhos aprendessem a me encarar.

Nunca fui bonita. E de certa forma, ter consciência disso já me libertava de uma série de obrigações. Maquiagens, penteados, vaidades são acessórios de quem acredita que pode se valer pela imagem. Como isso nunca foi arma minha, me escondia atrás dos livros e das canções, que se tornaram a fala que perdi com o costume da solidão.
Muitas vezes quis responder cantando. Talvez por isso, a paixão por musicais. Quem precisa de diálogos quando se tem a canção? Quem precisa de pessoas quando se tem um cão? Quem precisa de mim?

...

O outro Eu me intimida. Insiste na troca de olhares e pouco a pouco, vou me deixando entrar no jogo. Tão acostumada a ser sozinha, não sabia lidar nem com minha própria imagem refletida do espelho.

Numa coragem súbita, passei a investigar o outro Eu. Olhava-a com ausência de conhecimento, com ares de primeira vez.

Busquei novos ângulos, suavemente levantando o queixo, jogando os cabelos e sorrindo. Reconectava-me ao outro Eu. Estávamos fazendo as pazes.
Em tempo, notei que me afeiçoava ao que era inevitável...

E eu, que tanto queria que seu olhar inquisidor me libertasse do julgamento diário, hoje sofria a iminência de sua partida. É certo que o outro Eu, tão meu, não sobreviveria a luz do dia. Talvez a trégua seja justamente brincadeira da noite, que amiga, simulava esperanças e curava os mal feitos do dia me reconciliando com o outro Eu.

Choro.
Ela chora também. Divide comigo a dor. Somos finalmente amigas então.
Ao ver seu aspecto deprimente, busco me recompor para que siga meu exemplo.
Nos perdoamos.
Me livro do outro. E agora somos somente Eu.


terça-feira, 17 de abril de 2012

O vestido


O vestido florido destoava de sua dor.
A dor destoava da racionalidade.

Motivo era artigo de luxo. Todos os dedos apontados, todos os pesos, todas as ações podiam adotar a causa da angustia que levou-a a sair sem rumo.

O negro que tingia o céu parecia-lhe embrulhar os órgãos, pintar o sangue.

Qualquer companhia poderia lhe tirar a única certeza. A solidão.

Permitiu que o inesperado a assaltasse, mas os pés viciados nos velhos caminhos a levaram onde lhe era familiar.

Vigiava ao redor com olhos de primeira vez. Estava só, e podia ser ali quem quisesse. Decidiu deixar de ser o que era, e se descobriu tão arraigada em si, que nem as aulas de teatro lhe permitiram a fuga.

A incoerência do maldito vestido aturdia. O luto, talvez, seria mais apropriado, para ornar com o fúnebre estado de espírito ocasionado pelas percas inevitáveis.

Mas ainda assim, a noite era um cenário comovente. Sentia que podia camuflar-se nela,  no pretume pincelado de luz, escolhia transmutar-se escuridão a ser estrela. Que insanidade!

O terapeuta a pressionava em busca de respostas. Pelo valor da hora elas deviam vir embrulhadas pra presente. Isso sim! Com laço e carta de alforria da responsabilidade. Pensava...

Em suas divagações solitárias adormeceu, na mesa do pequeno bar, que sempre lhe chamara a atenção pelas toalhas quadriculadas em vermelho e branco. Toalhas de picnic dos velhos filmes.

O copo de leite exigido pela menina não fazia parte do cardápio, mas foi a forma do garçom segurar a cliente.

Gentil, o atendente procurava no velho armário de madeira antiga e linhas Rústicas, uma caixa de biscoitos para acompanhar o inusitado pedido, e surpreendido, ao vê-la adormecida, sorriu ternamente, pensando que o leite e biscoitos casavam com perfeição ao delicado vestido florido que tremeluzia as barras na cadeira, e o rosado das maçãs de seu suave rosto de menina.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Uma rápida conversa entre amigos

Por que me toma com esse olhar canino? Não venhas tu me abanar o rabo com tuas expectativas. Já me basta todo peso das esperas empregadas pelos outros, aqueles que dividem comigo o palco da vida. Esse eterno espetáculo no qual vivo a luta por um espaço na ribalta. São tantos os ensaios, frente ao espelho, cada movimento cauculado, cada peça de roupa milimétricamente ajeitada para se fazer mostrar as etiquetas.
Comportamentos estudados nos livros para não haver erro, catálogo os looks do momento, o cabelo da moda, o peso ideal.

Não meu caro animal, não é nada fácil, e nem barato. O custo é uma vida entregue ao trabalho assalariado que se resume ao pagamento da fatura no fim do mês.

Triste né? É a luz da rua, ou seus olhos parecem marejados?

Me encontro encenando tantos papéis que ao final do dia não sei mais quem sou, não sei se sou o que escolhi ser, ou fui escolhida pra ser o que queriam de mim.
Mas já é tarde querido cão, e preciso me apressar, amanhã bato ponto cedo, e ainda tenho o ritual de cremes e rejuvenescedores para aplicar no rosto antes de dormir. Amanhã cortarei os cabelos como os daquela linda atriz, mas serei obrigada a render meus cachos a progressiva pois só desta forma ficará como os dela.
Divertir-me? Sim estou mesmo precisando... Sabe estou ansiosa pela compra de um Blu Ray que vi promoção nas Casas Bahia, garantirei o meu logo após o pagamento.
Quando verei meus filmes favoritos? Não sei meu amigo, para pagar a nova aquisição precisarei fazer hora extra, mas um dia, vai dar...

O encontro com meus amigos? Sim... Estamos marcando a tempos... mas um dia vai dar...

Preciso ir amigo, tenho poucas horas de sono a minha espera, e quero chegar a tempo de cobrir minha filha.
Boa noite? Infelizmente não poderei dar, ela certamente já estará adormecida.
Me restará velar teu sono por alguns minutos, e me assombrar com seus pés que não cabem mais na cama de tão crescida.
Vá, continue sua corrida pela noite, e me deixe ir...
Siga sua vida vazia de cão e deixe-me seguir com meus importantes afazeres.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Minha primeira crônica fruto da oficina de Literatura da Maíra Viana :)


Era uma tarde de domingo, mamãe havia saído e era certo que não retornaria antes de fazer-se noite. As instruções eram claras: “nada de rua, menina”! 

Enganava-se quanto ao “menina”. Eu tinha nove anos e sabia muito bem ir até a “rua de lazer”, que ficava a poucos metros da casa, com meus patins novos, e voltar antes do fim da tarde. Seria tão cuidadosa que minha escapulida sequer seria notada. 

Meus amigos me esperavam ansiosos por uma tarde de diversão, e eu deslizava cada vez mais rápido pela pista lisa ao encontro deles.

O dono do pequeno bar da esquina, de avental encardido e cara fechada, estava a lavar a calçada, e as pequenas poças d’água  não me pareciam uma ameaça. Seguia firmemente na ânsia da brincadeira, com o olhar fixo no horizonte tremulo.

De súbito, a gravidade insensível levou-me ao chão.  O cimento cinza da rua se aproximava rapidamente, e não houve chance acordo, era certo que o estrago seria grande. 

Levei algum tempo para descolar o rosto do asfalto, quando me surpreendi suspensa no ar.  Me vi sobraçada ao marrento filho do dono do bar , que repetia insistentemente: “Sua mãe está em casa? Sua mãe está em casa?”

Aquela pergunta ecoava, e o pânico dominava meu corpo. Nem dor mais sentia,  somente o desviar do olhar e a cara de asco do garoto me deixavam tão angustiada como a iminência da encarar mamãe.

O espelho na entrada do velho casarão em que morávamos, revelou que não seria possível esconder o mal feito. Dois dentes quebrados e os vários hematomas eram  o saldo da brincadeira, e o salgado das lágrimas evocavam a dor.

Os sapatos gastos de mamãe açoitavam o chão de madeira com intensidade, enquanto todos os castigos e torturas possíveis dominavam minha mente.

Um longo abraço regado a lágrimas de culpa, estampou um leve sorriso em minha boca inchada e agora sem dentes.

Havia me livrado da bronca.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Basta uma fração de segundo... uma palavra errada, um olhar torto, um decisão mal tomada, um pequeno fragmento da vida pode mudar tudo... Aquilo que é hoje, deixa de ser amanhã... O que importa agora, perde o valor num piscar de olhos...
Me assuta e me fascina a brevidade da vida... Um filme sem dublê, refem da realidade por mais dura ela que seja...

E linda...

... Como pode ser tão linda... Vista atráves dos olhos de uma criança com seu brinquedo novo... Vista nos olhos da mulher que perde um filho e renasce da dor no amor...
Linda e aconchegante no abraço amigo... No olhar irmão... Na cumplicidade e no bom encontro...

É encantadora e quente... Entre sorrisos e lágrimas...

Diferente... a minha da sua, mas tão nossa quando se trata da minha dependência de ti... Dependemos do outro, e por mais assustador que isso seja... É lindo...

Que cada raio de sol, ou gota de chuva seja a chancela que me prove viva...
E que me faça valorizar tudo de lindo que ela tem...
E de breve...
E de eterno...

E que possamos sempre voltar o filme, e assistir de novo... e de novo... Tudo que esta guardado na saudade...
E que eu possa rir novamente, e chorar se doer... Mas mesmo assim reviver...